30.5.12

Super Bitches versus Machões

Vendo o programa d’ A Liga ontem sobre violência contra a mulher me deparei com o fato que estamos em uma época limítrofe entre dois paradigmas.

De um lado temos a velha idéia machista da mulher como objeto social e sexual quase inerte,  de que nem todas mulheres gostam de apanhar – só as normais (salve Nelson Rodrigues), de que quando o homem bate, mesmo sem saber por que, a mulher sabe por que está apanhando. E, curiosamente, várias mulheres apoiam tacitamente esse conceito.

Do outro, vanguardista, temos as super mulheres – saradas, pseudo-taradas, super sexualizadas, exibindo seus bumbuns em roupas apertadas (ou sem elas) para uma platéia de homens intimidados que não consegue ir além de ficar olhando e babando. Nada além de platéia.

Se a mulher de ontem se escondia por que era uma propriedade masculina, a de hoje se exibe, e é de todos sem ser de ninguém. Claro, são extremos dos comportamentos que temos hoje… msa será que dessas duas, surgirá uma terceira?


29.5.12

A Quarta Parede *

É triste o fato de que passamos quase toda a vida atuando – vivendo – como se houvesse uma platéia a nos assistir, vibrando com nossas vitórias, rindo das frases que pensamos em off, compartilhando nossas tristezas e torcendo por nós quando enfrentamos alguma dificuldade. O fato é que não somos protagonistas de nenhum seriado de sucesso, não há ninguém acompanhando nossa trajetória, sobretudo, a história de cada um de nós não está sendo registrada, e não será lida por ninguém. Tudo acaba aqui, e não há aplausos no final.

* A quarta parede é uma parede imaginária situada na frente do palco do teatro, através da qual a plateia assiste passiva à ação do mundo encenado (wikipedia)


3.1.12

O Primeiro Post do Ano do Fim do Mundo

Se for mesmo esse o ano em que o mundo vai acabar (eu sei, vocês não acreditam nos maias, paciência) estamos diante de uma ironia cósmica divertida. Justo agora, que as mudanças nessa ordem social louca começam a aparecer? Justo agora, na nossa vez? Justo agora que nós, 99% tomamos coragem de ocupar Wall Street e o mundo?

Tenho certeza de que, se o mundo realmente acabar agora, o real motivo é que Deus faz parte dos 1%!!!
E se com o passar dos meses as tragédias apocalítpicas aconteçam mesmo, e o destino se mostrar inexorável para nosso planetinha miserável – ou pelo menos para seus míseros habitantes (a Terra se recuperará de nossa infestação) – ocupemos!

Ocupemos os cinemas que nos cobram 15 reais por um saco de pipoca!

Ocupemos as academias de ginástica: todo ano pagamos seis meses e usufruímos um! Todos em forma para o fim do mundo!

Ocupemos as vagas de estacionamento nas ruas – fodam-se os guardadores e suas extorsões criminosas.

Ocupemos essas nossas prefeituras onde na calada da noite nossos politicozinhos fecham negociatas e inventam novas maneiras de chupar nosso sangue; ocupemos nossas câmeras de vereadores, que de palco de debate público viraram cenário para jogos de cena onde a política se afunda em sordidez.

Ocupemos as ruas, onde a polícia diz que não devemos estar pois é o lugar dos bandidos…

Ocupemos o mundo, 99% dele, antes que se acabe!

8.9.11

Minha Vila, Meu Mundo

Ontem foi o dia da independência. Para quem acredita em patriotismo, é o dia mais importante do ano, nosso 'quatro de julho'.

Eu, que já fui patriota, já desfilei pela minha escola (no fim da fila, lugar reservado aos baixinhos), já pintei minha cara de verde-amarelo e só não cantei ''isso aqui oô / é um pouqinho de Brasil aiá" por falta de oportunidades, acho humildemente que o patriotismo, no mundo todo, está com os aos contados.

Afinal, qual é o sentido em juntar 200 milhões de pessoas e dizerem que são todas da mesma nação? Que tenho eu em comum com um gaúcho dos pampas, com um índio amazônico, com um hippie de Feira de Santana? Nascemos no mesmo país, assistimos a rede globo, torcemos pela seleção, sabemos o que é o "Dia do Fico". Pouco a mais.

Acho que num futuro não muito distante, muitos de nós nos declararemos apenas cidadãos do mundo.  Numa época em que alguns países sequer tem seus próprios bancos centrais, que a moeda de um continente inteiro se chama euro, fará mais sentido você se orgulhar da sua vila, da sua cidade - e se declara um cidadão do mundo inteiro. Afinal, com a globalização, onde começa um país e começa outro?  E afinal, que motivos há em se orgulhar de pertencer a um lado de uma guerra, aos vencidos ou aos derrotados, aos opressores ou aos omprimidos?

Assim, quem sabe quando eu for velhinho, no meu RG (ainda haverá isso) estará: NACIONALIDADE: Terra, NATURALIDADE: Uma aldeia qualquer.

6.9.11

Hoje é Dia da Marmota?

Há dias em que durmo durante 4 horas e acordo como se já estivesse desperto, como se já estivesse na metade do dia. Outros, durmo por 10, 12 horas, e levanto apenas por que, afinal, ficar deitado lagarteando um dia inteiro não é exatamente edificante.

Alguns dias de inverno parecem sempre mais azuis, mais frescos, mas interessantes. em contrapartida, nos outros dias apenas conseguimos nos irritar com o frio, e nem mesmo olhamos para cima para checar se o céu não se tornou de um dia para o outro verde ou amarelo.

Nos dias de bom humor todos parecem simpáticos, sorridentes, todos os bom-dias válidos e todos os sorrisos sinceros. Nos restantes, achamos que metade das palavras que nos são lançadas não passam de falsa cortesia e mesmo um 'com licença' pode nos irritar ao ponto de queremos lançar o interlocutor ao chão e socá-lo até que se aquiete.

Então, acho que na verdade, todos os dias são o mesmo dia, apenas com disfarces diferentes. Quem muda somos nós, presos irremediavelmente num 'dia da marmota' eterno que apenas a nós cabe tornar um ótimo ou um péssimo dia.

Bom dia!

15.7.11

Confissões de um bibliófilo

Comecei a gostar de ler antes mesmo de saber. Meus pais liam 'O Diário de Sorocaba' religiosamente, e eu ainda com 5, 6 anos, ficava muito curioso.

Diferente de quase todo mundo, não aprendi a ler antes dos sete anos (minha sobrinha, por exemplo, além de fofa, com 4 anos já lê e identifica substantivos e adjetivos), mas me lembro que tinha muita vontade de entrar na primeira série, para finalmente poder ler esse tal de  'jornal'.

Durante a primeira série ganhei meu primeiro livro: 'os três mosqueteiros', um presente não muito adequado que recebi do meu tio Antero (que não era de Quental mas que morava nos fundos do mesmo quintal). Demorei muito para conseguir lê-lo inteiro, e dessa experiência me ficou a dificuldade em memorizar o nome das personagens . Dartagnan, Constance Bonacieux, o Homem de Meung, Athos, Porthos, Aramis não são nomes fáceis para uma criança de sete anos. Não para mim.

Outra coisa que ficou foi o gosto pelas aventuras e histórias de capa e espada, e de pessoas que saem pela porta de casa sem saber onde o caminho os irá levar. Não posso assistir Indiana Jones, Zorro, ler "o Senor dos anéis', sem que aquele garoto de sete anos com um livro,sentado embaixo de um pé de abacate, não fique agitado!

Digo tudo isso por que essa semana recebi de volta meus livros, que estavam guardados na casa de um amigo devido à minha última mudança. Caixas e caixas, muitas caixas. Livros aos quilos. De Tchecov a Machado de Assis, de Ephraim Kishon a Chico Anysio, de Steinbeck a Jorge Amado.  Não sabia que tinha tantos assim.

No estágio atual da nossa sociedade de consumo é impensável que alguém adquira algo para não consumir. Para a religião atual, 'compre e use' é um mandamento. Para a minha religião, livros são sagrados, objetos que testemunham as possibilidade de grandeza do homem. Ter seus próprios livros me parece fundamental para que essa herança não se perca.
Se alguém me perguntar 'Já leu todos esse livros?' (a pergunta sempre é feita quando alguém vê alguma pequena biblioteca particular) vou apenas sorrir. Em relação aos livros, há quem goste de lê-los, há quem goste de tê-los. Gosto dos dois. Um livro possuído e ainda não lido é um compromisso firmado entre você e alguém que pôs parte da alma naquelas letras. Se a vida fosse eterna, leria todos meus livros. É mórbido pensar assim, mas tenho certeza que, quando morrer, deixarei alguns compromissos sem resolver, pois certamente não terei lidos todos os meu livros.

14.7.11

The Day After

Em qualquer ambiente predominantemente masculino (que infelizmente são os únicos em que circulo) o dia seguinte a qualquer jogo de futebol importante tem as discussões monopolizadas pelo futebol. Hoje o assunto será a pelada de ontem entre Brasil e Equador.

Quando se trata da seleção, existem alguns estereótipos bem definidos de torcedor: o que torce contra, o que finge não torcer a favor e o que finge torcer contra mas torce a favor.

Um dos fatos é que tornou-se piegas torcer pela seleção. Admite-se fanatismo por um time (até mesmo pela Portuguesa), mas torcer pela seleção parece estupidamente infantil. Eu, que gostaria de ser um cidadão do mundo mas continuo sendo um pobre rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem amigos importantes e, principalmente, provinciano, confesso timidamente (não contem para ninguém) que torço pelo que os antigos narradores chamavam de 'scratch canarinho'.

Outro fato é que espera-se da seleção um nível de preciosismo e de perfeição que nunca mais será alcançado, creio. Já fomos o 'Dream Team' do futebol, já tivemos a seleção da copa de 82, um dos times mais bonitos de se ver jogar, mas mesmo nesses tempos, tenho certeza que sempre se esperava mais da seleção. Depois de 70, temos essa 'síndrome de vira-latas' ao avesso. Não conseguimos admitir que não somos os únicos cães de raça do mundo.

No fundo, acho que não acreditamos em competições. Não somos competitivos, não acreditamos no título conquistado pelo esforço. Nosso povo admira mais o estilo Romário, boleador agraciado com o dom de, em quatro toques dentro da área, fazer gols que pareciam sinfonias, do que Oscar, o basquetebolista que treinava 10 horas por dia até aprender a encestar direito.

Enfim, não queremos heróis, queremos semi-deuses. Preferimos acreditar que apenas aqueles que tem o dom podem ser bem sucedidos. Para nós, mortais, basta sombra e água fresca.

7.6.11

Terça-Feira

Eu já estou acostumado a levar bolsadas. Sente em qualquer ônibus, no corredor, e fatalmente você será atingido por uma imitação de Victor Hugo recheada maquiavelicamente com objetos pontudos e pesados. As piores são de mulheres que lhe pegam de surpresa, vindas de trás para frente e acertando na sua nuca. As que vem no 'jogo limpo', frente a frente, ainda nos dão tempo para inclinar a cabeça e evitar o pior.

Claro que entendo que às vezes acidentes acontecem. Mas também entendo que as pessoas não percebem o espaço coletivo como um lugar onde elas devem se preocupar minimamente em não incomodar o próximo.

Hoje uma senhorita, no café da manhã, passou delicadamente ao lado da mesa em que eu estava, com sua bolsa se arrastando sobre a mesma (a mesa, não a senhorita). Antes que eu percebesse ela já tinha arrastado junto a cesta de pães  e meu sagrado copo de café com leite. Tive o prazer de sentir todo conteúdo do copo se derramando sobre mim. Camisa, calça e cueca encharcados de café com leite.

Naturalmente a madame nem notou de imediato, apesar dos meus protestos de desalento e do meu pulo tentando salvar o conteúdo das minhas calças daquele líquido quase fervente. Depois de se sentar, olhou e disfarçou. Deve ter tardiamente percebido a cagada. Mas a vergonha foi maior que a civilidade, e fiquei sem nem mesmo receber aquele pedido de desculpas protocolar.

Uma viagem de volta para casa, um banho uma passada numa conveniência para um pingado com pão na chapa e, enfim, uma hora depois, estou de volta. Trouxe um bloco de concreto para colocar dentro da minha mochila. Aguardem

6.6.11

Segunda-Feira

Há épocas em que as segundas-feiras são dias normais, apenas marcando o início de uma nova semana de trabalho. Em outros períodos a segunda feira é encarada com o mesmo suspiro de desânimo que damos diante de um problema declaradamente insolúvel.

A segunda feira, é, na verdade, o grande termômetro de nossas vidas.  Segundas-feiras chatas significam que sua semana toda não deve estar valendo a pena. Só estamos vivendo de verdade de sexta a noite até domingo.

Segundas-feiras que encaramos com naturalidade são aquelas em que as semanas serão interessantes, nas quais não nos arrastaremos feitos zumbis gritando "Sexta-feira!!!!!! Eu quero sexta-feira!!!!"

Boralá que a segunda tá chata.. vamos ver se conseguimos mudar isso....

31.3.11

Uma Fábula

Bolsonaro defende idéias preconceituosas contra negros e gays, defende a ditadura militar que se instaurou no país após o golpe de 64. 211 mil pessoas lhe deram o voto, e ele já é deputado há 6 mandatos consecutivos.

Dar importância ao que Bolsonaro fala é fazer seu jogo: ele fala essas idiotices todas como aquelas crianças que falam palavrões para estranhos e os pais acham bonito. Bolsonaro e suas polêmicas atraíram esses votos todos, 200 mil imbecis do meu ponto de vista, que devem se sentir bem representados.

As fábulas eram histórias onde os animais falavam, e quase sempre tinham um fundo moral. Bolsonaro é uma anta que não merece a voz que lhe dão. Quer ser a personagem de uma fábula, a anta falante. Ele tem todo direito de grunhir - se é grunhido o som que as antas fazem - mas não devemos dar-lhe voz e vídeo. Quanto menos ele aparecer, e menos as bobagens que diz repercutirem, melhor. Que continue grunhindo para os seus, em paz, e não passe disso.

BBB11 - Misoginia

Big Brother. Já foi um personagem citado e recitado, o grande irmão que guiava os seres humanos pasteurizados do livro '1984'. Hoje é o reality show por definição, que no Brasil completa 11 edições.

Eu particularmente prefiro o livro. Mas acho que seria tolo demais desprezar o BBB. É um lixo sim, mas não é possível saber muito sobre uma pessoa apenas olhando o que ela joga na lata de lixo? o BigBrotherBrasil acaba sendo o retrato de nossa época, nossa cultura e nosso povo. Mesmo desse lixo pode-se tirar muito.

Não sei se cada edição foi marcada por um mote específico. Se sim, quase sempre relacionado com a sexualidade ou com o caráter dos participantes.



29.3.11

Se essa rua fosse minha..

Notícia matinal de que a prefeitura de Campinas vai redesenhar o trânsito na região do bairro Mansões Santo Antônio, aqui em Campinas.

12.3.11

O Reformador do Mundo

Pouca coisa me irrita mais do que ver algo sendo feito de uma maneira estúpida. Irrita-me, ME IRRITA MUITO que seja tão custoso para as pessoas parar e pensar antes de fazer algo.

7.3.11

Consoada

Sempre me impressionei com o fato de que as personagens de filmes e livros na cultura anglo-saxã sempre encontram em seus poemas e livros uma referência perfeitamente ajustada para qualquer situação ('one art', de Elizabeth Bishop, é meu exemplo recorrente). Sempre me pareceu que nossa cultura literária lusófona é, na forma, rebuscada e nunca profunda, e na intenção, imediatista e nunca universal.

25.2.11

Timshel

Já disse alguém - eu creio que tenha sido Nelson Rodrigues, mas é covardia googlar para confirmar - que há uns poucos cinco ou seis livros que nos definem, que leremos e releremos pela vida toda.

A minha lista ainda está em formação. 'Cem anos de solidão' já está lá. A série Rabitt, de John Updike, também. Dom Casmurro, melhor livro brasileiro na minha opinião, também.

Bilú

As pessoas assistem Big Brother avidamente, mas ficam boquiabertas quando descobrem que há um livro, '1984', de onde veio a expressão 'Grande Irmão' .

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As pessoas (eu lembro) reclamaram do final do filme  Romeu e Julieta (aquele, com Leonardo diCaprio)!

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Quando Lygia Fagundes Telles reclamou que o título de uma nova peça teatral, "As Meninas" (com Maitê Proença), era o mesmo de uma peça sua (que felizmente eu já assisti),  essas mesmas pessoas disseram que ela era apenas uma escritora anônima querendo aparecer (sério, eu li esse comentário.)

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Victor Hugo é tão somente uma marca de bolsas.

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Os escritores bem sucedidos no Brasil são os autores de novelas.

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Sócrates já foi um filósofo, um habilidoso e genial jogador de futebol. Hoje... é apenas um nome estranho.

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Não há nada errado em assistir Big Brother. Errado é ter apenas esse tipo de referência cultural. Há todo um mundo de cultura para ser explorado, um mundo que abre seus olhos. Um bom livro pode levar vc a uma viagem mais profunda que qualquer filme 3D. Um bom filme vai te contar uma história muito melhor do que meses de novela das seis.

Tentar refinar a própria cultura faz com que vc consiga ir além da camada superficial das coisas. O exemplo mais clássico é Simpsons: uma criança acha engraçado,  um adulto com referências Pop vai se divertir mais, alguém com mais referências culturais ´'clássicas' pode considerar o seriado simplesmente genial.

O importante é seguir o conselho de Bilú, o célebre ET brasileiro: Busquem o conhecimento!

4.2.11

Highlander

No cinema, na ficção, não são raras as vezes em que personagens imortais abrem mão disso para seguirem o que até hoje é conhecido como 'curso natural da vida'. De sopetão, o último que me lembro foi o robô de 'O homem bicentenário', abrindo mão da imortalidade apenas para provar que também era humano.

Não duvido (na verdade acho muito provável) que fatalmente chegaremos a um  nível de evolução científica e tecnológica que os humanos (talvez não todos,  apenas os que puderem pagar por isso) serão praticamente imortais.

A dúvida que segue é: haverá alguém em sã consciência que realmente abriria mão da imortalidade? Será que essas personagens que recusam essa possibilidade não são tão fictícios como os mordomos em histórias de detetives, os mocinhos dos blockbusters estadunidenses ou as heroínas das novelas das oito?

Vendo a persistência com que alguns lutam pela vida, mesmo quando já ela traz junto dores e sofrimentos, poucos prazeres e mais nenhuma ilusão, penso que está para nascer o ser humano que, tentado pela maçã da imortalidade,  resistiria. Creio que nenhum. Ao contrário do pecado original, onde comer a fruta era a expulsão do paraíso, para uma vida eterna todos iriam ceder à tentação e permanecer neste Éden para sempre!

17.1.11

Barbárie

Lembro de ter lido no "Princípio Dilbert", de Scott Adams, que a humanidade é formada basicamente de 99% de pessoas que apenas sobrevivem: comem, trabalham, dormem se reproduzem. Figurativamente, apenas pessoas tentando manter a cabeça fora da água. O 'trabalho' de verdade, as obras e idéias que mudam o mundo, seriam feitos pelos outros poucos.

Há muita verdade nisso. Pra grande maioria, não há diferenças entre a tecnologia moderna e a magia: eles não entendem, mas como funciona, não questionam nem tentam entender. é compreensível: embora poucos se recusem ao trabalho braçal ou automático, a grande parte tem preguiça de pensar.

Assim, até entendo que boa parte das pessoas não se preocupe em estar intelectualmente na idade média - até mesmo ignore isso. Mas o que eu acho irritante é como a maioria ainda é extremamente bárbara nos gestos de civilidade do dia a dia, no simples uso do bom senso.

Acabo de ver um senhor passeando com seu cachorro e parando em uma calçada alheia para o canino deixar um presentinho fecal ali. Sem constrangimento. Ele mesmo, se abrisse o portão de sua  casa e pisasse na merda, xingaria muito (talvez até no twitter).

Esse é o mesmo sujeito que joga lixo pela janela do carro e reclama das enchentes, que reclama da corrupção dos políticos mas tenta molhar a mao do guarda para não tomar uma multa, que fura uma fila no trânsito dando uma de espertinho. Exemplos não faltam.

A falta de civilidade básica me asssuta mais do que a ignorância, por que ela indica que, apesar das aparências, apesar de todos concordarem que se cada um fizer sua parte o todo melhora, apesar de todos menearem negativamente se você perguntar quem pratica essas barbaridades, o cidadão comum ainda não consegue fazer pequenos sacrifícios para o bem-comum - principalmente quando não tem ningém que o conheça olhando. O cidadão comum de hoje em dia é mais bárbaro que os cidadãos de muitas civilizações antigas - talvez mais bárbaro do que os bárbaros.

14.1.11

2010 - Balanço

Para mim, 2010 pareceu o ano que não queria acabar. Felizmente acabou.

Dilma felizmente ganhou as eleições. Metade do ano discutindo política, me deixou com ressaca desses assuntos.

Minha casa foi furtada. Duas vezes. Nas duas o principal alvo do ladrão foram minhas roupas, o que gerou um rumor de que eu estaria dando um golpe na seguradora para renovar trimestralmente meu guarda-roupas..

Tive suspeitamente gripe H1N1. Espero que tenha sido, para já me deixar mais imunizado em 2011.

Depois de alguns episódios de dores, descobri que tinha uma pedra do tamanho de uma bolinha de gude na vesícula. Entrei na faca, e hoje sou um homem desvesiculado.

Uma nota feliz: meu sobrinho nasceu, primeiro neto de minha mãe. Bem vindo a essa nau de loucos chamada Terra, Vinícius!!!

De viagens para lugares onde nenhum Ligeirinho jamais esteve, conheci o litoral de Santa Catarina (Camboriú, bombinhas e a inesquecível Floripa), Paraty, Angra dos Reis, Campos do Jordão, Ubatuba (sim, nunca tinha ido para lá. Sorocabano que se preza vai para Mogaguá e Ilha Comprida). A promessa de viajar para fora do país não funcionou, infelizmente

Para fechar 2010, tive caxumba semana passada. Tudo bem, já era 2011, mas provavelmente eu fui contaminado em 2010, o que faz com que eu me sinta satisfeito pelo ano ter finalmente, para mim, acabado.

Feliz 2011!

2.12.10

Cardinais, Ordinais, Sentido!

Tudo bem que muito provavelmente basta ter o ensino básico e ler uma apostila de direito penal - em quadrinhos - para ser policial, mas custava ensiná-los números ordinais também? Por que nenhum policial se atreve a falar 'centésimo septuagésimo novo DP"? Vira 'centro e setenta e nove DP'.

Se bem que se fosse ensinar algo aos policiais, eu começaria pelo valor do exemplo e os obrigaria a usar cinto de segurança, como todo MORTAL. Mas isso é outra história!

10.10.10

Sobre política, religião e futebol se discute sim!

Dizem alguns que não se discute sobre política, religião e futebol, por serem assuntos que sempre levam a discussões apaixonadas. E perigosas. Que o mais sábio a fazer é simplesmente respeitar a opinião alheia. Não concordo.  As pessoas merecem, sim, todo respeito. As opiniões devem ser desrespeitadas o tempo todo. Nada melhor para perpetuar uma opinião errônea do que tratá-la assim, com deferência, sem tentar testá-la e revirá-la do avesso.
A campanha política desse ano me absorveu em discussões. Às vésperas do primeiro turno, já estava estafado de tanto discutir os mesmos temas, digitando e redigitando os mesmos argumentos, as vezes para as mesmas pessoas, respondendo sempre às mesmas provocações. Claro que sei que não sou o dono da verdade, e que muitos dos que discutiam estando do outro lado acreditam sinceramente nas suas convicções. Mas esse eterno retorno aos mesmos pontos faz com que não consigamos elevar o nível de qualquer conversa.
Passei o primeiro turno querendo convencer de que o candidato que escolhi é o que irá levar adiante melhores idéias nas áreas de desenvolvimento, energia,  políticas sociais, políticas científicas e tecnológicas, e por aí afora. Tive que discutir fichas falsas, ver comparações sobre um país e uma lojinha de 1.99, responder se tal candidata era assassina, e por aí vai.
Por mais que os temas mais elevados sejam interessantes, é difícil suportar o bombardeio da mídia aos assuntos mais 'escandalosos'. Numa visão simplista, são essas as notícias que vendem jornal. Sendo cínico, não há como disfarçar o prazer de alguns jornais, revistas e emissoras em espicaçar o candidato que não apóiam. Esse bombardeio faz com que esses temas simplistas sejam os mais recorrentes nas discussões.
Idéias simples são como aquelas músicas que ficam no ouvido, dias seguidos, nos importunando. 'Dilma Terrorista' é uma delas. Junta o passado de resistência  ao regime militar do qual Dilma participou com a pecha 'terrorista' que numa visão 'Jack Bauer' do mundo, é a classificação para a pior espécie de ser humano que ainda respira nesse planeta. Você pode gastar horas explicando a diferença para um ouvinte que fará de conta que te ouve, para logo em seguida ver ele gritar novamente: "mas então, a Dilma é terrorista!"
Nessa eleição, entre Dilma, Serra e Marina, escolhi Dilma. Vejo características positivas nas três candidaturas. Apesar de toda desilusão, parece que temos cada vez melhores candidatos para presidente. Serra é melhor do que Alckmin. Marina é mais light do que Heloísa. Dilma talvez tenha o pulso firme que faltou em alguns momentos para Lula. Se formos mais para trás, temos Collor....
E quem sabe, nas próximas eleições presidenciais, essa mania de discutir picuinhas, de tratar a eleição como mais um assunto de fofocas, acabe, e passemos a discutir no bar, em casa, na net, as coisas que realmente interessam ao país.

11.8.10

Gonçalves Dias

Ontem, dia 10 de Agosto, foi aniversário de nascimento de Gonçalves Dias.

O autor de 'Canção do Exílio' e "I-Juca Pirama" teve uma vida bonita, digna de um filme. Se ele fosse estadunidense, já teria sido filmada sua biografia, uma história como "O amor nos tempos do Cólera', mas sem subir e descer o rio pelo resto da vida. Sem final feliz.

Diz a lenda que ele, mulato, apaixonado e correspondido, não teve seu pedido de casamento aceito pela família da noiva, devido à sua cor. Desistiu, mesmo com ela a favor de fugir com ele. Por despeito (contra ele, contra a família), ela acabou casando com um outro mulato. Reencontraram-se anos depois. Ele, ao olhá-la, percebeu o erro que havia cometido. Nunca ficaram juntos, mas o poema que ele escreveu imortalizou essa história


Ainda uma vez - Adeus

Enfim te vejo! - enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!


Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esperança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!


Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.


Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura..
Olha-me bem, que sou eu!


Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias - bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!


Oh! se lutei!... mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?

Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t'esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T'esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!


Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!


Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
"Ela é feliz (me dizia)
"Seu descanso é obra minha."
Negou-me a sorte mesquinha...
Perdoa, que me enganei!

Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!

Enganei-me!... - Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu'era...
E um louco fui, nada mais!


Louco, julguei adornar-me
Com palmas d'alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
C'o que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.

Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!


És doutro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!


Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!


Lerás porém algum dia
Meus versos d'alma arrancados,
D'amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; - e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, - de compaixão.

12.7.10

Um mundo bonito

Agora que a copa do mundo finalmente acabou, começamos a catalogar as coisas que mais nos causaram impressão durantes esses jogos quase olímpicos.

A imagem (ou o som) que ficará para alguns será a vuvuzela. Outros sentirão falta da colorida torcida sul-africana, fanática pelos bafana-bafana.

Outros dirão que a jabulani robou a cena. Alguns dirão que a cena heróica da copa foi Suarez defendendo uma bola no último minuto do jogo, sendo expulso como vilão e pulando como herói quando o pênalti foi defendido.

Para mim, a imagem mais forte que ficará dessa copa será da perfeita harmonização entre futebol, música e culinária de um comercial da Seara, mostrando Robinho, Ganso e Neymar petecando suas jabulanis ao som de 'Single ladies'!

É realmente um mundo bonito este em que essas três coisas se harmonizam tão perfeitamente. A peça ficou sublime. Queria até saber o nome do gênio que conseguiu criar essa obra tão fantástica!!! Poucas chances de se fazer algo melhor na propaganda televisiva depois disso!

2.7.10

Depois do Hexa

Nelson Rodrigues dizia que nós, brasileiros, tínhamos a síndrome de vira-latas. Ser o melhor, ser o primeiro, era algo que nos incomodava. Não nos sentíamos dignos, como se fôsssemos intrusos ou impostores prestes a sermos desmascarados.

Depois do tri, do tetra, do penta,  creio que, pelo menos no futebol,  nos livramos dessa síndrome. Já é bem nítido: quase todos nós achamos que, com um bom técnico, uma boa escalação, nenhuma outra seleção é páreo para nós.

Porém, os efeitos disso são tristes. Antes, quando mostrávamos um futebol bonito, embora nem sempre vitorioso, o mundo nos amava. A camisa canarinho era idolatrada fora do país, incondicionalmente. Usá-la podia ser um segundo passaporte, um certificado de que éramos boas-praças, alegres, bon vivants e fãs da beleza acima de tudo.

Isso está mudando. Não são poucos os brasileiros que, fora do país, ouvem que no futebol, somos cada vez mais arrogantes e cada vez menos merecedores. A camisa amarela já não é garantia de que todos simpatizarão conosco. Em blogs e discussões online internacionais, não são poucos os que nos escolheram para torcer contra. Talvez agora, no resto da américa latina, a Argentina tenha mais simpatizantes do que nós, o que é terrível.

A solução para isso é simples: sermos novamente vira latas. Voltemos àquela seleção de 82, jogando bonito, mas sem a pretensão de sermos incondicionalmente os melhores do mundo (mesmo sendo). Chamem de volta Falcão, Sócrates, Zico, Cerezo. Para as próximas copas, sugiro que percamos, mas percamos com estilo: autênticos vira-latas premiados.

Então, o mundo voltará a nos amar!!!!

p.s.: Não chegamos a Hexa... agora será obrigação ganhar em 2014. O projeto 'vira-latas premiado' terá que ser adiado por mais quatro anos!

1.4.10

eu tenho um sonho..

Depois de semanas dormindo sempre menos do que 4 horas por noite, submeti o trabalho recém finalizado e fui dormir por 10 horas seguidas. E entre tantas coisas pra sonhar, sonhei que tinha sido convocado pra seleção brasileira!

30.3.10

20.3.10

Vivendo

Você acorda todo dia, cinco minutos depois do que deveria. Apronta-se rapidamente, toma um pouco de café (que nunca está do jeito que você gosta), pega seu carro e parte para seu trabalho. Você se irrita no trânsito, xinga alguém que tenta entrar na sua frente, finge que não vê alguém que pede passagem. Você liga seu cd player e o ar condicionado do seu carro, fecha os vidros e simplesmente tenta ignorar que há um mundo lá fora.


Você chega ao seu trabalho mal-humorado como quase sempre está durante as manhãs. Você deseja bom dia para todos que você imagina que mereçam, e finge que não vê aqueles que você não quer cumprimentar. Você se irrita com a vassoura do faxineiro que quase acerta o seu pé, e pragueja pela primeira vez nesse dia.

Você chega em sua sala e lembra-se da montanha de problemas que terá para resolver. Você se lembra vagamente que não era esse o trabalho que você queria para sua vida, suspira e tenta esquecer, pois sabe que será mais um longo dia. Você trabalha competentemente o dia inteiro, mas sente que não há mais entusiasmo nisso. Você almoça, conta basicamente as mesmas piadas para as mesmas pessoas, fala mal daqueles que não estão por perto, e tenta agradar aqueles que possuem alguma influência, sem parecer falso.

Você volta para casa todos os dias, e encontra lá uma mulher que um dia você amou e que hoje lhe parece uma estranha. No jantar, você conversa sobre o futuro dos seus filhos, sobre o tanto que ainda falta para sua aposentadoria e sobre quanto você irá gastar na pintura da casa. Você descobre que não ganha mais tanto quanto imaginava, e chega a conclusão de que deve conter suas despesas. Você faz as contas e descobre que ainda não pode comprar aquela televisão com uma tela enorme que você namora há quase um ano.

Assim você vive, dia após dia. Você acorda decidido, e diz que de hoje em diante tudo será diferente, que você irá viver da maneira que sempre achou que deveria, e você somente volta a pensar nisso no final do dia e descobre transtornado que foi apenas mais uma daquelas falsas promessas que você sempre faz a si mesmo.

Você olha a grama no inverno, e diz que mal pode esperar as chuvas de verão, para que a grama volte a ficar verde e linda. Você olha as tardes chuvosas de verão, e espera que o inverno chegue logo para que você não precise se molhar tanto. Você passa a odiar o inverno, pois não suporta vestir tanta roupa e dormir soterrado pelos cobertores, e detesta o verão, pois simplesmente acha insuportável transpirar o dia inteiro.

Você vive dia após dia, mês após mês, ano após ano, esperando o próximo final de semana quando você finalmente irá viajar para o litoral, esperando o próximo mês, pois então você estará de férias,esperando o próximo ano, quando a situação do país irá melhorar e então você talvez receberá uma promoção. Você transfere suas esperanças para amanhã, e acha que sempre haverá amanhã. Você faz aniversário e fica feliz quando alguém lhe diz que você parece cinco anos mais novo, mesmo sabendo que talvez não seja um elogio sincero. Você se lembra do tempo em que você subia vários lances de escada sem ter que parar para descansar, e do tempo em que mulheres lindas e jovens ainda correspondiam aos seus olhares. Você encontra um solitário e precursor fio de cabelo branco entre seus cabelos pretos, arranca-o e não fala nada pra ninguém.

Você faz as contas e descobre que quando seu pai tinha sua idade você o achava velho. Se aposenta, e acha que finalmente irá aproveitar a vida. Então você descobre que detesta dormir tarde, que não consegue mais entender e apreciar os enredos dos novos filmes e que o teatro lhe deixa incrivelmente sonolento. Descobre que as músicas que você gostava já não tocam mais nas rádios, e que você somente encontrará discos de seus cantores preferidos em antiquários.

Você sorri constrangido quando alguém levanta-se no ônibus e cede o lugar para você, preferindo que isso não acontecesse. Você disfarça o assombro quando aquele garotinho lhe chama de vovô, e sente algo estranho no estômago quando descobre que amigos seus, que aprenderam a fumar escondidos juntos com você, começam ter suas missas de sétimo dia encomendadas.

Você se pega um dia fazendo planos para o futuro, sentado numa poltrona em frente a uma lareira, numa tarde fria de inverno. Então você sente uma grande dor no peito, e sente que já não sentirá mais nada. Você tem vontade de chorar, e descobre que ainda não estava pronto para morrer. Mas morre.

Você se vai, e seu corpo é enterrado em um cemitério muito bonito, todo gramado e cheio de jardins floridos. E o tempo, incrivelmente, ainda passa, e cada vez mais você vai sumindo, deixando de existir nas lembranças e memórias de todos. Até que um dia, seu ente mais querido, ou a pessoa da qual você mais gostava se esforçará, mas simplesmente não conseguirá mais se lembrar do doce e triste sorriso que estava em seu rosto quando você foi enterrado.

17.3.10

Impressões sobre um funeral

As pessoas se movem com respeito. Passadas fortes e cabeças erguidas são raras, como se a morte ainda estivesse dando rasantes por ali. Os poucos desavisados que riem por qualquer motivo banal, se sentem imediatamente constrangidos, quase amaldiçoados. Os curiosos, querendo serem convencidos de que a morte é real, olham para o morto com um assombro patético. Os familiares choram o falecido e, em algum canto do funeral, cenas pitorescas e interessantes da vida recém encerrada são lembradas, com sorrisos leves e lágrimas disfarçadas. Uma criança corre e brinca com um desdém infantil pelo que ocorre a sua volta. Gritando e correndo enquanto todos a volta o olham, não parece perceber que perdeu o avô.


No enterro, as filhas desatam a chorar, uma mais do que a outra, de um modo que parece tragicamente competitivo. Nada é falado, e um observador que saiba o quanto o recém-chegado à "floresta dos homens esquecida" merece, sente que, mesmo que as palavras se esvaziem ao vento, as vezes devem ser ditas. O incômodo e angustiante barulho da terra sendo jogada pela pá sobre o caixão não ocorre. Em seu lugar apenas um pedreiro fechando a caixa de alvenaria onde o caixão foi depositado.

Tijolo a tijolo, a última morada do sujeito vai sendo finalizada. O pedreiro, de joelhos, trabalha maquinalmente, enquanto a sua volta as pessoas olham desoladas para o seu trabalho. O silêncio reina, e é apenas desrespeitado por dois sujeitos, um de cada lado do tumúlo que, em voz alta, combinam se encontrar na próxima semana.

13.3.10

Pequena História do Universo

No início só havia Deus. Então Ele criou o tempo, e para matar o tempo, criou o universo. Mas não foi assim, artesanalmente, como se usasse massinha de modelar: bolou algumas poucas leis, criou e inflou de energia uma particulazinha à-toa e deixou que o resto acontecesse. A partícula, de massa infinita e dimensão infinitésima, explodiu. Da explosão nasceram estrelas, girando uma em torno das outras em padrões já imaginados desde o primeiro momento dessa criação. Dessas estrelas, eventualmente surgiram planetas, girando em torno delas e esfriando com a calma de quem tem a eternidade para esperar.

Muita coisa aconteceu em todos os cantos dessa criação,mas num cantinho especial disso tudo havia uma estrela amarela que tinha, no seu terceiro planeta, umas formas de vida engraçadas.  No príncipio de fato, só haviam seres minúsculos e praticamente inanimados. Mas as espécies começaram a surgir, cada qual tentando se adaptar da melhor maneira possível àquele planeta que mudava constantemente. Noventa e nove por cento delas estava fadada ao fracasso, é verdade. Mas dentre elas surgiu uma bem diferente. Até ousavam pensar.

Eram macacos, que depois de conseguirem andar em pé e pensarem (alguns poucos os faziam, mas mantinham o restante na ilusão de que esse dom era compartilhado) dominaram o planeta em pouco tempo. O planeta, como que reagindo, parou de mudar, as espécies pararam de surgir, as outras que existiam a definhar. Mas esses macacos reagiram bem a solidão que se aproximava: evoluíram mais ainda, descobriram os segredos da imortalidade e do controle da própria evolução.

Passaram a não depender dos outros seres do planeta que então, rapidamente, sumiram. Sobraram apenas eles. Com o segredo da imortalidade em mãos, pararam de se reproduzir. Foram muito além: para se aprimorarem cada vez mais, ao invés de se reproduzir, aprenderam a se fundir, e de dois macacos fundidos surgia um, infinitamente melhor. Fundiram-se e fundiram-se até que, da última fusão, nasceu o ser perfeito: no momento inicial de sua existência ele já conhecia os segredos do passado e do futuro, do tempo enfim. Desprezando as limitações físicas em que estava, ele mergulhou no espaço e no tempo, e passou a estar em todo lugar, em todo momento. Na verdade, para ele, o tempo deixou de existir.

Então, sem ter o que mais fazer ele sentiu saudades: criou de novo o tempo e, para passar esse tempo, criou o universo....

22.1.10

O país da pseudo-retratação

Sou um fã de Mário Bortolotto. Leio o blog dele há anos, e sou dos que ficaram tristes ao saber que ele havia atingido por vários tiros. Também sou um dos que não se espantaram ao saber que ele foi baleado ao tentar reagir (o que parece ser contra lei nos dias de hoje - mas isso é assunto para outro post).

Bortolotto foi muito assediado por jornalistas, ávidos por mostrar seu 'drama'. Ele fez o que muitos fariam: agiu com calma, e não se sentiu na obrigação de falar com todos e responder todas as perguntas idiotas e sem sentido (me parece que isso também é contra a lei - tenho que verificar).

No seu último blog ele descreve a polêmica com o jornalista Maurício Stycer - caderno cotidiano da Folha. O jornalista havia solicitado uma entrevista com o Bortolotto e diantes da recusa, ao menos imediata, se vingou. (veja tudo em http://atirenodramaturgo.zip.net/). Depois que Botolotto postou sobre isso, o jornalista teria pedido que ele se retratasse.

Bortolotto não se retratou.

Por isso que sou fã desse cara.

Bortolotto não caiu na armadilha fácil da pseudo-retratação que virou moda no Brasil.

O cara vai a público, começa um discurso (ou post, ou carta, seja lá o que seja) falando que, talvez, na opinião do outro, ele pudesse estar errado, e que não tira a razão do outro... e depois dessa mea culpa introdutória, usa todo o restante das palavras para.... anular a retratação. Para falar que até pode ser obrigado a se retratar, mas no fundo continua achando que está do lado certo da verdade.

Ao contrário, Bortolotto foi lá e se ofereceu  para mostrar ao jornalista como fica duro um braço com implantes de titânio. Manteve o que disse.

E tenho certeza, se Bortolotto fosse se retratar, ele faria da maneira correta, e não dessa maneira chorosa e falsa que virou moda aqui. Falaria com todas as letras se estivesse errado, e não tentaria contra-argumentar.

Retratar-se não é discutir. Retratar-se é admitir que estava errado, pedir desculpas e algo mais.

No Japão o sujeito se retrata , se demite e se suicida. Se não fizer isso, é proibido de frequentar casas de karaoke por 10 anos.

Na Rússia, o sujeito se retrata, se demite e pula ná agua gelada, pelado! Fora uma proibição de consumo de vodka por 2 meses (acredite, isso é o inferno para um russo).

No Brasil o cara vai lá, começa, fala que não é bem assim, etc e tal...enfia uns dólares na cueca, sai sorrindo e ainda diz que perdoa os inimigos.

Merecemos.

21.1.10

Por que sou contra o "Sem Parar"

AS vezes, antes de tomar alguma decisão é interessante pensar a respeito. Qualquer que seja o assunto.

O famigerado 'sem parar' estava sendo instalado de graça. Mas, como além da instalação, havia uma mensalidade, achei uma extrema estupidez pagar por alguns minutos por mês de vantagem.

Depois, quando soube que se vc o usar mais que x vezes por mês não paga a mensalidade, achei válido.

Depois pensei: quem ganha com isso?

1 - A concessionária, que já ganha muito dinheiro, vai economizar com funcionários, com certeza (quanto mais gente usar o 'sem parar', menos funcionários ela precisa).

2 - Por outro lado, essa diferença deve ser tão pequena para eles que não vai fazer com meu pedágio diminua. Eu teria que morar na Islândia pra acreditar que diminuiria.

3 - Ou seja, a concessionária vai economizar um funcionário e embolsar a diferença.

4 - Bem, isso é lucro. Se a empresa é multinacional, vai ser remetido pra fora!

Conclui que, no momento, é um desserviço ao país usar esse tipo de coisa. Tiro empregos e ajudo a mandar grana pra algum acionista aproveitar mais alguns dias em Aspen.

Portanto, fico assim: Vou parar sim. E a cada vez vou continuar usando cédulas de 50 reais, que não custa nada pentelhar esse povo folgado.

2010 - O ano do óbvio

2010 deveria ser, de acordo com o título traduzido de um livro famoso (ou filme: vai depende se você é mais fã de Kubrick ou sir Arthur C Clarke) o ano em que faríamos contato. E, defato, começamos o ano fazendo contato com o óbvio.

São Paulo. Como um país tropical não é projetado para suportar chuvas? SE na islândia uma chuvinha fosse desculpa para tamanho caos, vá lá.. mas aqui? Nossas sarjetas e bueiros em dias de chuva parecem mero enfeite. Aliás, as vezes sequer o asfalto suporta a chuva - afinal, nosso asfalto é a base de argila? quando eu tiver a oportunidade de conversar com algum urbanista, perguntarei:

1 - Por que as sarjetas, bueiros e galerias são dimensionados apenas para garoas?

2 - Por que seu eu gramar o terreno de minha casa inteira pago o mesmo IPTU que pagaria se impermeabilizasse todo o terreno?

3 - Por que ao invés de fazer como em Seul e planejar que as Marginais de São Paulo deixem de existir no futuro, dando espaço para o rio respirar, estamos construindo mais pistas na marginal?!?






5.1.10

Resoluções de ano novo

Sim, tenho que confessar: apesar de ter resistido durante muitos anos, esse ano voltei a ser um daqueles que fazem resoluções de ano novo.

Terminarei meu mestrado.

Blogarei pelo menos 2 vezes por semana.

Não ficarei viciado em 'colheita feliz' ou twitter.

Uma viagem internacional (em todo caso,lembrem-se que o Paraguai ainda não foi anexado ao Brasil).

Começarei minha árvore genealógica.

Voltarei ao futebol, começarei a correr e emagrecerei 3 Kg.

Voltarei a tocar violão.

E,se no fim de tudo,ainda me lembrar,escreverei um conto e plantarei uma árvore.

Depois de tudo isso,ainda dá pra acreditar em resoluções de ano novo? 

Posted via email from ligeirices's posterous

23.9.09

O dia sem carros!

Que fique registrado que não usei carro por uma simples casualidade.

Coincidência. Por que eu nem sabia que dia 22 seria o dia sem carro.

Talvez eu não tenha prestado a devida atenção.Talvez eu sequer tenha lido as notícias certas ou visto o Jornal Nacional
segunda-feira.

Mas, para mim, os jornais e jornalistas ficaram mais contentes em anunciar
que não houve adesão visível ao dia do carro do que avisar com ênfase e
antecedência sobre o mesmo.

24.7.09

Sobre a vida

Como disse Tom Hanks, a vida é como um barril de Heineken! Vc tem qua aproveitar cada gole, cada taça, por que quando menos você espera, acabou. E as vezes pode ser melhor acabar com a festa do que beber Bavária......

23.7.09

Sobre um louco e seu cachalote albino

Quando descobri o prazer da literatura, devorava um dúzia de livros por mês. Menino 'humilde' da periferia, a descoberta de que havia uma biblioteca pública municipal onde eu podia retirar e ler de graça quantos livros eu conseguisse, foi como dar a chave do bar ao bebum.

De lá pra cá mudei um pouco. Mudei muito. Já não tenho tempo de ler todos os livros que me caem nas mãos. Assim, tenho que escolher melhor o que leio. E o que leio, leio sem pressa, saboreando. Afinal, cheguei a triste constatação de que não chegarei a ler todos os livros que deveria nem que vivesse 1000 anos.

É desse jeito que estou lendo Moby Dick. E é assim que pretendo ler vários outros clássicos.

Moby Dick, ao mostrar a jornada de Ismael (Ismael? Ele apenas diz "Chamai-me Ismael". Quanto mistério na primeira frase do livro) acompanhando o capitão Acab em sua perseguição ao cachaalote branco está falando sobre loucura, sobre aqueles que levam suas idéias até os últimos limites, ou está falando sobre os sonhadores, sobre aqueles que atravessam o mundo atrás de um objetivo?

Não sei. Sei que o mundo seria menos interessante sem os Acabs, para perseguirem seus sonhos e delírios, e sem os Ismaéis, acompanhando os loucos apenas para serem os que contam suas histórias. Entre os dois, prefiro ser Ismael. mas conheço muita gente que prefere ser o cachalote!

28.5.09

O Rei da Cocada Preta

Falar essa língua nacional que a gente chama de portuguesa é um privilégio bacana. Deve ser a única língua que evolui não tentando ser mais econômica, dizendo mais e falando menos, e sim mais sonora, musical. Aos poucos já estamos eliminando as proparoxítonas, chatas de encaixar numa música (ok, cale-se). As nossas vogais são longas, preguiçosas, bem baianas, musicais. E até mesmo as expressões vão se moldando mais pelo som do que pelo significado.

Ou você acha que 'o rei da cocada preta' tem uma etimologia histórico-cultural mais elaborada?

25.5.09

Parque São Jorge: o Fenway Park do Brasil

Não tendo nada melhor a fazer sábado a tarde, assisti a um filme na globo que acabou por me divertir. Falava sobre um torcedor fanático do Boston Red Sox, time americano de beisebol que, em conjunto com os Yankes, forma provavelmente a maior rivalidade esportiva do mundo.

O que me fez ficar mais interessado no filme foi minha identificação com os meias-vermelhas!

Explico: sou corintiano. Assim como nós, os torcedores do Red Sox também amargaram um longo tempo sem conquistas. Longo mesmo: foram 86 anos, quase 4 vezes mais do que os nossos desprezíveis 23 anos!

Esse período de seca é chamado por eles de 'a maldição de Bambino', pois havia começado quando o dono do Red Sox vendeu o rebatedor Babe Ruth para os Yankees. Resultado: os Yankees, passaram a ganhar e a fazer sucesso, e os Red Sox ficaram 86 anos curtindo a maldição. Detalhe: o dono do clube usou o dinheiro da venda para... promover um musical na Brodway.

Torcedores de times que nunca ganham são iguais no mundo inteiro, foi o que concluí. Anos e anos de espera, de decisões que sempre acabam mal forjam uma torcida cada vez mais fanática pelo seu time. Acho que, enquanto a maioria dos times tem uma torcida, Corinthians, Red Sox e afins são torcidas que tem um time.

ps.: mais uma cidade para visitar. Quero conhecer Boston e ir ver um jogo no Fenway Park - estádio do Red Sox - com a camisa do Corinthians!!!

7.4.09

Notas sobre uma despedida na rodoviária

A namorada o abraça, fica pendurada no pescoço dele, por que ele é bem mais alto que ela. Ao lado a mãe da menina observa-0s, encantada. Quase todos já entraram no ônibus, mas ele continua ali, tentando retardar o máximo o momento de se ir. Ela o beija, segura-o, enquanto que ele a abraça e quase a balança de um lado para outro, a ponto de uma das pernas dela ficar se movendo como um pêndulo para lá e para cá.

Finalmente, não há mais como esperar: praticamente todos já embarcaram. Eles se despedem, e quando ele se solta ela ainda lhe faz algumas recomendações, ou diz que lhe ama, não sei. Ele entra no ônibus, e tem a expressão despreocupada e cosmopolita de quem vai viajar com a certeza de voltar. Ela fica do lado de fora, olhando para dentro do ônibus, com uma cara triste, quase chorando. Para disfarçar, começa a olhar para as próprias unhas, tirando com os dentes uma cutícula imaginária, e é observada pela mãe, que olha para as mãos da filha sem dizer nada.

O ônibus parte, ela o segue com os olhos, procurando o namorado entre as janelas e tentando lhe dar um último adeus, mas não consegue. Fica parada, com a mãe ao lado, triste, mas não tão tristes como nós, mero observadores, embevecidos e enciumados com aquela cena ingênua e tocante, tendo que se contentar em viajar sem ninguém ali se despedindo daquela maneira.

3.4.09

O leitor voraz, esse solitário

Acabei de ler "Budapeste".

O livro é fantástico, e me leva até a pensar que talvez Chico Buarque tenha desperdiçado seu tempo se dedicando tanto à música (claro que é só lembrar de alguma delas para ver que não é bem assim).

De qualquer maneira, agora tento encontrar desesperadamente alguém que também tenha lido o livro. Ainda não consegui. Já tentei inclusive, com más intenções, emprestar o livro para algumas pessoas. Educadamente todos recusaram. fico com aquela sensação de quem saiu do cinema, sozinho, com vontade de falar sobre o filme com o primeiro que estiver ao lado.

ps.: Budapeste passou a ser minha cidade literária preferida. superou Macondo (para onde, afinal, nunca conseguirei viajar), Londres (tenho que reler as crônicas de Fernando Sabino) e Dublin (para onde talvez eu vá mais pela cerveja do que pelo bloomsday).

1.4.09

Notas em uma sala de espera I

É a entrada do centro cirúrgico.
As pessoas entram caminhando, o que choca um pouco minha imagem do mundo com base no que vejo nos cinemas. Parece-me estranho que alguém entre no centro cirúrgico senão de maca.
No começo da noite chega um senhor. Algo em torno de 70 anos, sozinho, bem disposto. A enfermeira pergunta quem veio com ele. Veio sozinho. Indagada do porque da questão, ela diz que seria para entregar as coisas dele, roupas, sapatos, enquanto ele é operado. O que chega a ser mórbido, pelo menos para mim, mero "overhearder" da situação. E se ele morrer?, penso.
Ao contrário do que supus, nenhum dos dois se choca. Nem ela, pelo comentário que poderia ser mal interpretado, nem ele, por estar sozinhonuma situação como essa, sem nem um amigo ou parente.
Mas minha curiosidade vai além: como se sente alguém que vai para uma cirurgia sozinho? Vai de ônibus, de carro? Não teria filhos, irmãos, sobrinhos? Será que simplesmente não quis avisar ninguém? Será que ninguém se importa com ele? Ou seria um sociopata, tipo Gregory House, com quem ninguém se importa a ponto de acompanhá-lo num momento desses?
Fico sem respostas. Até as 21h, quando fui embora, ele ainda não tinha saído. E ninguém esperava por ele.

31.3.09

Sobre pessoas: Engenheiros

Nós, engenheiros (ou pelo menos alguns de nós), gostamos de pensar que temos uma estrutura de pensamento diferente da de outras pessoas. Quando entramos no curso de engenharia nosso cérebro é esmigalhado (principalmente nos cursos de cálculo) e depois remontado pedaço por pedaço, de uma maneira bem diferente. Passamos a achar que o mundo é um conjunto de sistemas sub-otimizados, que todo problema pode ser abordado de maneira analítica e que o nosso modo de pensar pode ser utilizado para resolvê-los independente da área de conhecimento a que pertencem, desde relacionamentos pessoais até marcenaria.
Segundo um amigo meu, Akira, aqui da UNICAMP, a melhor definição do que significa entrar em um curso de engenharia está descrito em trecho de "Alice no País das Maravilhas", que transcrevo abaixo:

"Naquela direção", o Gato disse, apontando com a pata direita, "vive um Chapeleiro: e naquela direção", apontando com a outra pata, "vive uma Lebre. Visite qualquer um que lhe agrade: ambos são loucos."

"Mas eu não quero estar no meio de loucos," Alice respondeu.

"Oh, você não pode evitar," disse o Gato: "somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca."

"Como você sabe que eu sou louca?" disse Alice.

"Você deve ser," disse o Gato "ou você não teria vindo aqui."

6.3.09

Onde os fracos não tem vez

Essa semana dois sujeitos me surpreenderam pela força

José de Alencar, a despeito de qualquer outra consideração, passou a ser o meu modelo de fibra moral e enfrentamento da adversidade. Batalha contra essa doença infernal que devora as pessoas de dentro para fora há anos, sem esmorecer. A franqueza e firmeza com que ele enfrenta a morte é comovedora e inspiradora. Depois que li sobre a dimensão dessa sua última cirurgia, percebo que muitos teriam desistido. Quase todos, acho.

Rubens Barrichello é o looser nacional. Mas é engraçado como alguém que se manteve perto do topo durante tanto tempo possa ser um perdedor. Cruel pensamento esse, de que só o primeiro é vencedor. De qualquer maneira, enquanto todos já o colocavam como aposentado, ele batalhava silenciosamente pelo seu lugar no grid. E, pasmemo-nos todos, conseguiu. Nada mal para um perdedor, não?

10.1.09

Uma vela para um cego

O conflito árabe-israelense parece trazer a tona o pior desses dois lados. Ver um povo que sofreu tanto como vítima transformando os palestinos em um povo sem presente e sem futuro é o atestado de que a história tem um senso de humor mórbido.

Os palestinos, por sua vez, só são inocentes por se permitirem ser usados pelo parcela do mundo árabe que não admite a possibilidade da existência de Israel. Também matam inocentes, também se deixam levar por uma guerra declarada de exterminação mútua. Por serem os mais fracos, deviam saber que tem mais a perder. Se um dos dois povos tiver que desaparecer, eles estariam pagando 10 pra 1 na bolsa de apostas.

Mas no meio de tudo isso fiquei sabendo hoje (via o ótimo blog do Luis Nassif- http://colunistas.ig.com.br/luisnassif) sobre os Shministim - jovens israelenses presos por se negarem a servir ao exército por objeção de consciência. Eles tem um site onde você pode se manifestar em favor deles: http://december18th.org, e um vídeo no Youtube legendado em português em que se pode ouvi-los.

É isso. Dizem que a noite todos os gatos são pardos. Mas parece que quando se entra na escuridão os corações iluminados se destacam. Não o suficiente para iluminar muito, mas apenas para que ainda lembremos que a luz existe.

7.1.09

Homem - Versão do Editor

Viver é a eterna procura pelas partes que nos completam. E viver é a eterna ilusão de que tudo que você conquista é para sempre.

Por que o que hoje te faz completo e te é essencial, amanhã não passará de peso morto.

Na eterna ânsia de olhar para trás e ver os anos completos, queremos levar o passado conosco. Somos borboleta que, mesmo podendo voar, ainda insiste em carregar consigo o casulo!!!

"Cortar, cortar, cortar". Talvez seja esse o lema perfeito para uma vida completa. Deixar consigo apenas o que importa. Apenas as emoções verdadeiras. Apenas as saudades autênticas. Apenas as lembranças que ainda aquecem o coração.

Cortar, cortar, cortar, até o fim. 'Nervos, coração, músculos, tudo', se necessário. E se no final apenas sobrar um cansado coração, com um punhado de lembranças sinceras, terá valido a pena. E se não sobrar nada - triste, muito triste - ainda assim restará o orgulho de ter carregado consigo apenas a verdade. Particular e íntima, mas ainda verdade.

2.1.09

Finais Felizes

"Ratos e Homens" está entre meus três livros preferidos, e há tempos que persigo sua última versão cinematográfica, com John Malkovitch no papel de Lennie Small. Acabei de assistir, e para mim o filme consegue ser tão sublime quanto o livro.

"Ratos e Homens" é para alguns a obra prima de John Steinbeck. Ainda não li mais que meia dúzia de livros dele e só por ainda não ter lido "Vinhas da Ira" ainda não posso concordar... A história é magistralmente escrita. Para alguns é um livro de escrita simples, mas não há nada mais complexo do que escrever muito usando poucas palavras, e é isso que Steinbeck faz com elegância.

MAS EU FICO PENSANDO... as melhores histórias sempre tem finais tristes. Devia ser obrigatório escrever a versão com final feliz. Seria interessante saber como Steinbeck faria um final mais feliz para Lennie do que morrer sorrindo imaginando a sua fazenda de coelhos...

20.12.08

Programa de sábado!

Sábado de manhã.

Eu podia tá robano, eu podia ta matano!!!!

Pior ainda, eu podia estar lavando o carro ao som de pagode!!!

Mas ao invés disso eu a melhor das esposas fomos tomar suco de açaí com banana e caldo de cana (recomendo) e na volta passamos em um sebo.

Farenheit 451, a 13 reais!!!

Acho que estamos perdoados!

18.12.08

Disseminando a ignorância

Poucas pessoas sabem o que significa água 'potável'.

A água potável é aquela que colocamos em potes. E costuma ficar muito boa, principalmente se o pote for de barro!

Menos pessoas ainda sabem que existe uma outra água, que as vezes confundimos com a 'potável'. É a água 'portável', que é aquela que colocamos em garrafinhas para levarmos para cima e para baixo.

Mas (reparem, sempre deve haver um 'mais'. Dizem as boas regras da penúltima flor do Lácio (a língua portuguesa, para os desavisados. Aliás, pode-se colocar parênteses dentro de outros?) que não se deve começar um parágrafo com 'mas',mas quem se importa?) se a água for deixada dentro dessas garrafas durante muito tempo acaba ficando ruim. Para consertar isso, basta colocá-la de novo em um pote por algumas horas, e ela volta a ser 'potável'!

Incrível, não?

9.12.08

Sobre os lendários olhos de cigana

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Toda vez que entro em um cinema,abro um livro ou desloco minha atenção para qualquer obra de ficção na TV me dou o direito de me desligar da realidade e penetrar na história, como se fosse o invisível e complacente ouvinte com quem o narrador conversa.

Hoje, ao ouvir as inconfundíveis primeiras palavras de Dom Casmurro na TV, repeti esse ritual. Ao som de "Uma noite dessas, vindo da cidade para o Engenho Novo..." me desliguei da realidade e me preparei para mergulhar no maravilhoso universo de Machado.

Mas algo me incomoda. Não consegui ficar submerso o tempo todo.

A minissérie está ótima, os atores maravilhosos, e a produção como só as séries da Globo conseguem ser no Brasil. Mas para mim, essa narrativa com o tom de "Hoje é dia de Maria" acaba sendo muito pesada,visível demais. 'Dom Casmurro' precisa disso? Com um texto tão primoroso, há porque deixar o formato tão mais chamativo do que o próprio texto?

E não é a questão de cenografia. Depois de 1o minutos de Dogville (filme onde o cenário é desenhado no chão,com giz) vc já abstraiu esses aspectos e mergulhou na história.

Talvezzzz.... talvez na verdade o fato que me incomoda é que o que eu realmente esperava era uma outra versão de Dom Casmurro. Uma com pretensão e coragem de ser a versão filmada definitiva do clássico (mesmo que não fosse; e aliás,no Brasil, quais são as versões definitivas filmadas de nossos clássicos literários? Parece que ainda somos mais corajosos escrevendo do que filmando).

Claro, essa é minha opinião. Que não é humilde, mas vem de alguém que apenas gosta de ler e de ver,e que não gosta que o interrompam enquanto lê ou assiste.

E, como eu já escrevi antes,criticar é fácil....
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5.12.08

A Iniludível

Hoje (ou melhor ontem; mas para mim a data não muda enquanto eu não for dormir) meu pai faria 62 anos! No próximo dia primeiro de abril completam dois anos que ele se foi (e um brincalhão desavisado diria 'parece mentira'. Ele diria isso, dado que era a brincadeiras fora de hora).

Um abraço para ele, onde quer que esteja. Onde for, se for, espero que haja pescarias e moda de viola, como ele gostaria (até posso imaginar ele cantando, em segunda voz: 'antigamente, nem em sonhos existia / tanta ponte pelos rios / nem asfalto nas estradas')...

Naturalmente seria inútil escrever sobre tristezas e perdas.Todos perdem ou perderão os seus, e quem não tiver os seus para perder não tem muita razão para estar aqui.

Algo não muito triste mas um pouco mais assustador é que a morte de alguém próximo acaba sempre por revelar nossa própria mortalidade. É quando certamente se sente (as vezes pela primeira vez) o (mal, mau?) hálito da 'indesejada das gentes', dura e iniludível como dizia o poeta. É quando,em um estalo, notamos e compreendemos que até aquele momentos éramos imortais, ou pelo menos nos sentíamos assim.

3.12.08

Batendo os calcanhares três vezes!

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Existem dois tipos de pessoas: as que gostam de sair e as que gostam de voltar.

Para as que gostam de voltar, há a frase que resume o sentimento reconfortante de pertencer,mesmo que temporariamente, a algum lugar: "Não há lugar melhor do que o lar"

Mas, cá entre nós, se houver, me avisem. Principalmente se tiver serviço de quarto!


p.s.: para as que gostam de sair, o que estão fazendo aqui?? Vamos, movam-se!
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2.12.08

Quem não sabe fazer, critica!

Se é verdade que criticar é mais fácil do que fazer, então quase sempre quem critica tem razão! Afinal, é muito mais fácil acertar criticando do que fazendo!

27.11.08

O que nos afeta?

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É incrível como ficamos perturbados em ver um casal gay adotar um filho, mas não nos perturbamos com a imagem do orfanato lotado de crianças sem carinho e sem atenção de onde esse filho veio.
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24.11.08

Com licença, vou à lua!

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Século XXI. Já chegamos a Lua, logo estaremos em Marte. Já estamos cavocando abaixo do 'solo' do mar, tirando petróleo de um tal de 'pré-sal'. Conseguimos espiar há tempos dentro de nossas células, e clonagem já saiu da ficção e entrou para a realidade. Nossos chips tem camadas de poucos nanômetros, e já são tão pequenos que estamos trabalhando praticamente no nível atômico. A humanidade chega a níveis de evolução técnica e científica absurdos!

Mas esquecemos como se usa a palavra licença!!

É incrível como podemos avançar tanto e continuarmos, na média, tão loquazes quanto uma vaca.

É só olhar: no supermercado, no ônibus e até no trabalho. Naquelas situações em que se deveria pedir licença para passar, por que a outra pessoa está bloqueando sem notar o caminho, as pessoas simplesmente adquirem um comportamento bovino. abaixam a cabeça, ficam sem jeito, ficam se mexendo para serem notadas. Tudo para poderem passar SEM pedir licença e sem olhar nos olhos da outra pessoa.

Deve ser um sintoma dos tempos (pós)modernos. Gostamos de ter muitos amigos virtuais, centenas de contatos no orkut, um msn com dezenas de nomes piscando, mas somos incapazes de estabelecer um breve contato por pura cordialidade com o próximo. Só temos fronteiras amigáveis com o próximo na vida online.

Na vida real, só muros com seteiras. E talvez um alçapão para despejarmos óleo fervente nos incautos que tentarem usar a porta.
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20.11.08

Eterno Retorno

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Há alguns anos atrás criei um blog. Ele ainda está lá: www.ligeirices.blogger.com.br

Durante algum tempo escrevi bastante, e até consegui uma pequena legião de leitores, que pode não ter passado de uma dúzia, mas que me proporcionou muita diversão e satisfação (intelectualmente falando,claro).

Se algo que você fez realmente te satisfez, vc deve fazê-lo sempre, não é? No mínimo pela eternidade. Pois bem, aqui estou eu de novo. Novo blog, novo ciclo. talvez alguns posts não sejam novos, mas paciência...

Lá vamos nós! Outra volta na montanha russa!!! Depois, pegue seu broche e caia fora daqui!!
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